O sofrimento não pede licença
e talvez esse seja o primeiro passo para compreendê-lo.
Alguma vez você já conseguiu barrar o sofrimento que estava à sua porta?
Em outras palavras: você já conseguiu dizer “não” à dor de perder alguém, de ser traído, de viver uma frustração ou uma decepção, e simplesmente deixar de sentir tudo aquilo?
Provavelmente, não.
O sofrimento chega sem pedir permissão. Ele não espera um momento conveniente, não pergunta se você está preparado e tampouco vai embora porque você gostaria. Ele simplesmente aparece e passa a fazer parte da experiência.
Essa ideia é representada na frase de Chinua Achebe, escritor, poeta e crítico literário nigeriano, ao retratar o sofrimento como alguém que entra e se acomoda sem ter sido convidado.
Se o sofrimento faz parte da experiência humana, por que ainda insistimos em tratá-lo como algo que nunca deveria existir?
Desde cedo aprendemos que sentir tristeza, medo, culpa ou angústia é um sinal de fraqueza ou de que há algo errado conosco. Assim, quando essas emoções aparecem, a primeira reação costuma ser tentar eliminá-las o mais rápido possível. Mas há um problema nessa estratégia: emoções não desaparecem porque queremos.
Quanto mais lutamos contra aquilo que sentimos, maior tende a ser o desgaste emocional. Em vez de acolher a experiência, gastamos energia tentando controlar algo que, muitas vezes, está fora do nosso alcance.
Isso não significa se conformar com o sofrimento ou desistir de resolver os problemas. Significa reconhecer que existem duas tarefas importantes diante de uma situação difícil: lidar com o problema e lidar com as emoções que ele desperta.
Resolver um conflito, tomar uma decisão ou enfrentar uma perda é importante. Mas desenvolver recursos para atravessar a tristeza, a ansiedade, a frustração ou o medo é o que fortalece você para enfrentar essa realidade com mais clareza.
O primeiro passo, portanto, não é eliminar a dor.
É permitir que ela exista.
Reconhecer o que você está sentindo, sem se julgar por isso, cria espaço para enxergar a situação de forma mais equilibrada. É essa presença diante da própria experiência que ajuda a distinguir aquilo que pode ser transformado daquilo que precisa ser aceito.
Quando conseguimos fazer essa diferenciação, deixamos de gastar tanta energia tentando controlar o incontrolável e passamos a direcioná-la para aquilo que realmente depende de nós.
Organizar-se por dentro não faz os problemas desaparecerem.
Mas torna muito mais possível enfrentá-los por fora.